2006

dança em foco – Dança e Tecnologia 

Autores: Alexandre Veras e João Luis Vieira (Brasil), Claudia Rosiny (Alemanha), Johannes Birringer (Alemanha), Rodrigo Alonso (Argentina)

O projeto dança em foco nasceu da constatação de que a dança, hoje, a exemplo de outras artes, encontra na tecnologia da imagem a possibilidade de criação de novos parâmetros estéticos. Evidentemente, tal constatação não é nova: a própria associação entre dança e cinema é antiga e data do nascimento da sétima arte. Contudo, o advento do vídeo e o crescente e vertiginoso desenvolvimento de recursos digitais que testemunhamos tornam a imagem virtual um lugar de excelência para o estabelecimento de novas possibilidades expressivas da dança.

Criado em 2003, no Rio de Janeiro, como o primeiro evento brasileiro inteiramente dedicado à interface vídeo / dança, o dança em foco é uma iniciativa única no Brasil, reunindo, num mesmo evento, mostras, oficinas, palestras, mini-cursos, mesas-redondas e performances. Definindo-se como um Festival Internacional de Vídeo&Dança, o dança em foco se estabelece como uma plataforma internacional para a exibição da produção mundial de videodança – em que se destaca a pouco conhecida produção latino-americana – mas, simultaneamente, se abre para o desenvolvimento das múltiplas possibilidades de composição entre a dança e as imagens virtuais: do documentário de dança à instalação coreográfica interativa.

Associando-se, desde 2004, ao Festival Internacional de Videodanza del Uruguay e ao Festival Internacional de Video-Danza de Buenos Aires, no Circuito Videodança Mercosul, o dança em foco lançou uma primeira compilação, em DVD, de obras de videodança brasileiras, argentinas e uruguaias, que já se transformou em referência mundial para a produção latino-americana, colecionando convites para apresentação em festivais e centros culturais em várias partes do mundo, como Bolívia, Venezuela, Cuba, França, Inglaterra, Alemanha, Espanha e Estados Unidos.

A videodança é, de fato, uma forma artística em pleno desenvolvimento em vários países do mundo: os festivais se multiplicam, e também as plataformas de distribuição e exibição; seu espaço no cenário artístico brasileiro, ainda restrito, cresce visivelmente. Ela, a videodança, é definitivamente um formidável veículo para a produção da dança contemporânea. E, no entanto, as tentativas de definição desse tipo de obra ainda continuam precárias, incapazes de circunscrever as inúmeras possibilidades de criação. É frequente tomá-la como um produto híbrido, nascido de um diálogo entre a dança e o vídeo, no qual essas linguagens se tornam indissociáveis; como uma obra coreográfica que existe apenas no vídeo e para o vídeo. Mas hesitamos já ao grafá-la como videodança, vídeodança ou vídeo-dança, para não mencionar outras expressões que tentam referi-la. Mesmo tomá-la como um híbrido implica na afirmação de pressupostos questionáveis. Sua conceituação ainda será objeto de um longo, e talvez sempre incompleto, exercício. Da mesma maneira, também sua (pré-)história internacional e nacional ainda foi apenas esboçada.

No Brasil, a bailarina, coreógrafa e videomakerAnalívia Cordeiro é considerada a pioneira, tanto na videodança, como na videoarte. Entre suas criações destacam-se M3x3 (1973), Slow-Billie Scan (1977), Trajetórias (1984), 0°=45 (1974/1989), Ar (1985), Striptease (1997), e, mais recentemente, Carne (2005), exibida na edição do dança em foco daquele ano. Outros nomes de coreógrafos e videomakersque vêm produzindo videodança no Brasil são: Alexandre Veras, AndréaBardawil, Glauber Filho, Karen Virgínia, Luiz Carlos Bizerril (ligados ao Núcleo de Vídeo-Dança Alpendre, no Ceará), Andréa Maciel e Paulo Mendel, Angélica Carvalho, Eduardo Sánchez, Gilsamara Moura, Henrique Rodovalho e Kleber Damaso, JoãoAndreazzi, Lara Pinheiro, Luciana Brites, MaíraSpanghero, Mara Castilho, Nelson Enohata, Rodrigo Raposo, Sheila Ribeiro, Thelma Bonavita e, emergindo de um promissor circuito universitário, Alex Cassal e LilyenVass, Cecília Lang, Letícia Nabuco e Tatiana Gentile, entre outros. A lista, restrita, basicamente, aos que já tiveram obras exibidas no dança em foco, já é bastante expressiva, considerando as dificuldades de produção vigentes no Brasil.

Nesse contexto, destacamos os nomes de André Semenza, cineasta, e Fernanda Lippi, coreógrafa e roteirista, realizadores do filme As Cinzas de Deus: um de seus grandes méritos foi o pioneirismo no circuito comercial de cinema. O filme foi realizado pelo Zikzira Teatro Físico e teve co-produção da inglesa Maverick Motion e da TV suíça DRS. Trata-se de uma bem cuidada produção de 73 minutos em película de 35mm, editados sem nenhum diálogo, exibida em salas de três capitais brasileiras: Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro. As Cinzas de Deus foi um marco na produção do cinema e da dança do país. Abriu possibilidades concretas para o surgimento de novas produções brasileiras.

A presente publicação é uma iniciativa inédita. Trata-se do primeiro livro editado no Brasil tematizando a arte produzida na interface vídeo / dança. Seu formato trilíngue prolonga seu alcance internacional, especialmente pela América Latina. Os ensaios aqui reunidos, ainda que de maneira introdutória, estendem-se por questões históricas, estéticas e conceituais: eles informam sobre os primórdios da relação da dança com as imagens virtuais, ainda no século XIX; as obras e artistas que, ao longo do século XX, se ligaram ao estabelecimento internacional da videodança; os novos horizontes que a tecnologia digital aponta neste século XXI, seus desdobramentos nas telas e nas cenas; e, enfim, sobre sua realidade no Brasil, a partir da perspectiva de uma artista que tem seu nome ligado à relaçãodança / tecnologia entre nós.

Nesta sua quarta edição, o dança em foco segue com alguns parceiros importantes: AFAA, Arts Council (Inglaterra), Centre George Pompidou (França), Consulado da Áustria, Consulado da França, Festival de Video-Danza de Buenos Aires, Festival Internacional de Videodanza de Uruguay (FIVU), Instituto Cervantes, MAM (Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro), MINC, Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro e SESC SP. Segue, sobretudo, com o apoio do SESC Rio de Janeiro, instituição à qual se credita o surgimento do dança em foco: o festival vem ocupando o Espaço SESC, em Copacabana, desde sua primeira edição em 2003.

No ano de 2006, o dança em foco passa a ter no Centro Cultural Telemar um novo realizador. Ligado a essa instituição, tão profundamente preocupada com a interface entre arte e tecnologia, o festival firma-se sobre novas bases, amplia e diversifica seu público de espectadores e participantes, e agrega também um público de leitores: é nosso desejo que esta primeira publicação brasileira contribua para o futuro desta(s) arte(s) na qual a dança se reinventa.

Paulo CALDAS, Leonel BRUM, Regina LEVY e Eduardo BONITO

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