2007

dança em foco – Videodança 

Autores: Virginia Brooks (Inglaterra), Armando Menicacci (Itália), Douglas Rosenberg (Espanha) e Ivani Santana (Brasil).

O dança em foco– Festival Internacional de Vídeo & Dança, evento pioneiro dedicado ao desenvolvimento da interface vídeo/dança no Brasil, consolida-se, em sua quinta edição, como uma das mais importantes plataformas para a videodança no mundo.

Concebido menos como evento do que como projeto, estabelecido através de diversas estratégias de formação e difusão (oficinas, mesas redondas, minicursos, palestras, performances e Mostra Internacional de Videodança), o dança em foco, em 2007, amplia suas ações, aprofunda seus temas e prolonga seu alcance geográfico.

Sua associação com o Festival Internacional de Videodanza del Uruguay e com o VideoDanzaBA – Festival Internacional de Buenos Aires, desde 2004, formando o Circuito Videodança Mercosul, produz, de um lado, uma segunda compilação, em DVD, de obras argentinas, brasileiras e uruguaias de videodança, atualizando uma iniciativa que, como já dizíamos em 2006, transformou-se numa referência mundial para a produção latino-americana; de outro, inaugura um projeto de residência que reúne artistas dos três países desenvolvendo suas pesquisas, em itinerância, sucessivamente no Rio de Janeiro, Montevidéu e Buenos Aires.

As mesmas motivações que conduziram à criação do Circuito Videodança Mercosul levaram à fundação do Fórum Latino-Americano de Videodança, em Buenos Aires, em 2006. Neste ano, paralelamente ao dança em foco, o Rio de Janeiro será o lugar de sua segunda edição, reunindo representantes de 10 países dedicados ao debate sobre estratégias regionais de produção e circulação da videodança.

Notável é também a multiplicação de suas parcerias internacionais: festivais como Cinedans (Holanda), ReelDance Festival (Australia), Festival Internacional de Danza y Medios Electrónicos – FEDAME (México), Caída Libre y Festival Video Danza UARCIS (Chile), Nova Dança (Brasília), Circuito Videodança Mercosul – CVM (Argentina, Brasil e Uruguai) e NU2s (Espanha), exibem na MIV – Mostra Internacional de Videodança seus programas on Tour, onde reúnem o melhor da sua programação para circulação internacional.

Em 2007, o dança em foco traz também a novidade de comissionar, pela primeira vez, a produção de obras de videodança; a novidade é também do suporte: telefones celulares. O festival integra assim uma embrionária – mas poderosa – tecnologia de produção, reprodução e difusão de imagens que atravessa o nosso cotidiano e cuja disseminação se liga ao sempre crescente status dos meios de comunicação de massa em nossa cultura.

Na primeira publicação dessa série, ao considerarmos as indefinições quanto à videodança, dissemos da nossa “hesitação já ao grafá-la como videodança, vídeo dança ou vídeo-dança, para não mencionar outras expressões que tentam referi-la”. Aqui, neste livro dança em foco – Videodança, os leitores reconhecerão que a grafia ainda permanece assumidamente sem normatização. Um inventário da variedade de nomeações disso que se passa entre o vídeo e a dança (variedade especialmente reconhecível na língua inglesa, onde “screen dance”, “dance for the camera”, “camera choreography”, por exemplo, nomeiam práticas e eventos) poderia eventualmente ensinar algo sobre as muitas nuances poéticas e estéticas que atravessam esta produção.

O próprio dança em foco, ao declarar-se um Festival Internacional de Vídeo & Dança pretende, assim, não antecipar modalidades desse encontro e permanecer aberto a quaisquer interfaces aí possíveis. Pois elas, as interfaces, podem se dar na bi- dimensionalidade da tela tanto quanto na tri-dimensionalidade da cena; interessa-nos aquilo em que, numa ou noutra, reconhecemos efeitos recíprocos – efeitos que, de fato, se fazem cada vez mais freqüentes mesmo onde não suspeitaríamos.

Reconhecemos o efeito cinema na dança, nas cenas que estabelecem dramaturgias do fragmento e que se constroem a partir de procedimentos de edição; reconhecemo-lo também nos corpos que multiplicam seus focos (William Forsythe, em seu Solo, efetuando o que o próprio descreveu como um petit allegro com todo seu corpo) ou materializam velocidades alteradas (desde a já banal câmera lenta à quase impossível câmera acelerada que assistimos na versão cênica de Amelia, do La La La Human Steps, e exacerbada em sua versão videográfica).

Mesmo numa coreógrafa que não listaríamos, a princípio, como ligada às novas tecnologias, como Pina Bausch, reconhecemos o efeito cinema não apenas na dramaturgia de fragmentos que atravessa seu Tanztheater (impressa também em seu único filme O Lamento da Imperatriz), mas mesmo nas repetições e reversões de tempo delicadamente presentes numa obra como Café Müller.

Reciprocamente, percebemos a insistência da dança ou de uma dimensão coreográfica qualquer no cinema: desde asSerpentine Dances, de Thomas Edison, passando pelas mais diversas soluções do musical, pelo cinema experimental (e a seminal obra de Maya Deren) e pelas cenas de dança (ou, mesmo, de artes marciais) inseridas nos mais diversos filmes ao longo de toda história. E, para além do que se passa diante da câmera, apenas mencionamos, aqui, o quanto a referida dimensão coreográfica pode ser reconhecida nos procedimentos da câmera e/ou da edição: talvez aí, sobretudo, se dê a passagem que, afetivamente, faça surgir na dramaturgia das imagens um efeito dança.

Este livro dança em focoVideodança aborda questões ligadas a diversos agenciamentos da dança: aqueles, já mencionados, com o cinema e o vídeo (os ensaios aqui reunidos, aliás, privilegiam a videodança, seja ao tematizar sua linguagem, sua história ou sua possível fenomenologia), assim como os agenciamentos com as artes plásticas e com variadas formas de tecnologia digital (especialmente aquelas ligadas às instalações e aos dispositivos interativos). Seguimos esperando, com esta segunda publicação, a exemplo da primeira, contribuir o futuro das artes “em que a dança se (re)inventa”.

Em 2007, o dança em foco tem renovado seu apoio pelo Oi Futuro. Como principal realizador e especialmente interessado nas relações entre arte e tecnologia, o Oi permitiu ao festival, desde a edição de 2006, o acesso a um novo e ampliado público. Também o Espaço SESC, um dos mais importantes centros de produção e difusão cultural da cidade, renovou, pela quinta vez, seu apoio ao festival que ajudou a criar.

Desde sua criação em 2003, o projeto dança em foco, para além do festival, fez transitar suas ações por várias cidades do Brasil e do mundo: desde mostras comentadas de vídeo no interior do Ceará às edições especiais em São Paulo e Berlim (com apoio do SESC SP e MinC, respectivamente), em 2006. Ao completar cinco anos, o dança em foco viu-se, em seu contexto específico, cada vez mais solidamente inscrito na paisagem cultural do Rio de Janeiro, do Brasil e mesmo – ao considerar as quase 400 obras de 35 países inscritas para a MIV 2007 – do mundo.

Paulo CALDAS, Leonel BRUM, Eduardo BONITO e Regina LEVY

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