2012

dança em foco – Ensaios Contemporâneos de Videodança

Autores: Douglas Rosenberg (EUA), Silvina Szperling, Alejandra Ceriana, Susana Temperley (Argentina), Claudia Rosiny (Alemanha), Karen Pearlman (Austrália), Airton Tomazzoni (Porto Alegre), Alexandre Veras (Ceará), Beatriz Cerbino e Leandro Mendonça, João Luiz Vieira, Leonel Brum e Paulo Caldas (Rio de Janeiro). E ainda Carolina Natal e Cristiane Bouger, selecionadas pelos curadores Ivani Santana e Felipe Ribeiro através de convocatória nacional de novos textos.

A publicação deste Ensaios Contemporâneos de Videodança é uma ação do dança em foco – Festival Internacional de Vídeo & Dança. De fato, mais do que um festival, trata-se de um ‘projeto’ que se multiplica em variadas ações, formatos e geografias. Construído em torno de diversas estratégias, o dança em foco ocupou- se, desde sua criação, com as zonas de fronteira, os entrelugares e as convergências indefiníveis que atravessam a arte de hoje, vinculando-se às diversas possibilidades estéticas que surgem do encontro das novas tecnologias (sobretudo da imagem) com a dança contemporânea: videodança, performances interativas, instalações coreográficas, espetáculos multimídia e tudo aquilo que – num sentido mais largo – problematize o corpo e a imagem.

Neste cenário, no entanto, ao longo de dez anos, foi mesmo a videodança o que se estabeleceu como lugar privilegiado para proposições poéticas da interface corpo/imagem/movimento. Sua MIV (Mostra Internacional de Videodança) recebeu centenas de obras de todo o mundo, circulou por quase todos os estados brasileiros e foi tematizada pela maioria dos textos nas quatro publicações que, de 2006 a 2009, o dança em foco teve ocasião de produzir. Daí que estes Ensaios Contemporâneos sejam de Videodança.

Nele, são reunidos escritos de artistas e pesquisadores nacionais e internacionais ocupados em estabelecer um pensamento crítico em torno de uma produção audiovisual que insiste em reinventar-se. Em sua maioria inéditos, os ensaios versam sobre a pré-história e a história do encontro da dança com o cinema, desfilam obras e artistas que fundamentaram aquilo que viria a ser chamado de videodança, assim como problematizam dimensões poéticas, transdisciplinares e críticas. Trata-se, aqui, mais uma vez, de publicar/publicizar – a partir de diferentes backgrounds – proposições que pensam e fazem pensar o trânsito afetivo entre as poéticas do corpo em movimento e da imagem em movimento.

João Luiz Vieira elege como tema o cinema de Maya Deren, artista seminal no âmbito do que reconhecemos hoje sob o termo videodança. De fato, a dança emerge em sua obra como uma dimensão que potencializa e instrumentaliza experimentações que a desviam do modelo cinematográfico hollywoodiano. A partir de obras que datam da década de 1940 – a exemplo de Meshes of the Afternoon (1943) e A Study in Choreography for Camera (1945), nas quais o autor se detém -, formulava o conceito de “filme-dança”, em que bailarino, câmera e montagem conspiram para o estabelecimento de “uma dança fílmica que apenas pode ser executada no cinema”.

O ensaio da pesquisadora Silvina Szperling aborda o percurso e as influências da realizadora argentina Narcisa Hirsch, atuante hoje ainda aos seus 84 anos. Ao emprestar-lhe o título Ritual in Transfigured Time, tomado de uma obra de Maya Deren, de 1946, apontam-se de imediato vínculos quanto ao universo temático daquela artista, mas sobretudo à potência de se estabelecer um legado, de fundar os vínculos que, no tempo, produzem a história possível de uma arte.

E é mesmo neste sentido – de produzir uma história possível da videodança – que Airton Tomazzoni e Leonel

Brum acompanham, de modos distintos, aqueles acontecimentos que, ao longo dos pouco mais de cem anos que nos distanciam da emergência do cinema, reúnem corpo e tecnologias da imagem.

Tomazzoni ocupa-se da dança tal como emerge naquele cinema que – ainda no período pré-sonoro – inventava-se como técnica e linguagem. A imagem silenciosa surge como um lugar profícuo para que corpo e movimento, como imagens, se reconfigurassem e instaurassem novas anatomias, poéticas, sentidos e espaços. Aí, a breve cronologia – limitada entre o momento em que o cinema nasce e aquele em que se torna sonoro (1927) – não diminui a potência e a dimensão fundadora de uma arte feita da fisicalidade silenciosa dos corpos-luz.

Leonel Brum faz um mapeamento dos acontecimentos que, desde seus antecedentes cinematográficos, preparam a constituição daquilo que chama a cena da videodança: as pesquisas de movimento realizadas no pré-cinema (no âmbito da cronofotografia), experimentações do chamado primeiro cinema, os musicais hollywoodianos, as vanguardas cinematográficas e a videoarte. Em tal percurso – finalizado com a abordagem do surgimento da videodança no Brasil – é mesmo toda uma cena que vai se delineando, resultado de apropriações, rupturas, transgressões e derivas que atravessaram a história das aproximações, fricções e distanciamentos entre dança, cinema e vídeo.

É também um percurso o que descreve Claudia Rosiny: suas referências àqueles marcos incontornáveis – os pioneiros do cinema, os filmes experimentais de vanguarda e os musicais – no entanto, pretendem informar sobre a dimensão intermidiática que atravessa a arte do século XX e contextualizar uma análise de obras de videodança. Rosiny arrisca-se mesmo a listar “Quinze Teses para uma Fenomenologia da Videodança”, ligadas a aspectos formais, técnicos e estéticos. A última parte de seu ensaio ocupa-se do complexo estatuto da narrativa na videodança, comparando as diferentes soluções espaço-temporais de três representativas obras europeias.

A história da dança é evocada por Beatriz Cerbino e Leandro Mendonça como um modo de tensionar as noções de escritura e autoria. De Feuillet a Thierry De Mey, passando por Thomas Edison, a dança que se fixa graficamente – como notação ou registro luminoso – torna-se outra e estabelece, em sua identidade instável e fugidia, novas questões para si mesma.

Cristiane Bouger aborda a problematização do Futurismo, sob a forma de vídeo, pelas coreógrafas Rosana Chamecki e Andrea Lerner, a partir daqueles elementos que eram caros ao ideário do movimento: no curta- metragem das artistas, velocidade, dinamismo, simultaneidade e violência fundamentam o quase contraditório projeto de celebrar – no contexto da Performa 09 – Terceira Bienal de Novas Artes Visuais Performáticas de Nova York – os passados 100 anos do manifesto futurista.

Alexandre Veras fundamenta seu texto em duas perguntas que, segundo ele, modulam a variação constitutiva das obras de vídeo-dança (conforme a grafia preferida pelo autor) sobre duas perspectivas: O que distingue uma vídeo-dança de um filme de dança?

O que distingue uma vídeo-dança de um filme de ação? A partir destas questões, problematiza aspectos sobre o registro – do teatro-filmado à dança-filmada –, convenções de decupagem, câmera e espaço de representação. Ao final, ensaia uma problematização dos processos de criação na videodança a partir das lógicas da ficção e do documentário.

A australiana Karen Pearlman aproxima as artes de editar e coreografar, reconhecendo procedimentos análogos entre a construção de sequências por editores e a construção de frases de movimento por coreógrafos. Como estratégia, desloca do âmbito musical elementos a ele diretamente vinculados: pulso, simetria, assimetria, fraseado, tempo, e também corpo e espaço são objetos da ocupação daqueles que editam e coreografam o ritmo – metáfora musical maior, chave de um saber composicional.

Ainda que sem referências à matrizes composicionais da música, o esforço de Paulo Caldas em seu ensaio é também de afirmar uma analogia entre dança e cinema/vídeo: um mesmo logos dramatúrgico rege a cinese como dimensão comum e faz convergir coreografia e cinematografia como escrituras de movimento. Seu percurso é menos pela história do que pelos modos de encontro – as interfaces – entre corpo e imagem em movimento, as conspirações e configurações de influência recíproca que renovadamente se estabelecem nos palcos e telas.

No ensaio de Carolina Natal, é o espaço que emerge como eixo em torno do qual dança e cinema são tematizados. O termo dancine nomeia uma terceira instância estabelecida a partir da interrelação, em “trio”, do espaço da tela (imagético), do espaço físico (geográfico) e, neles onipresente e compartilhado, o espaço do corpo. A partir de formulações foucautianas, é como outro espaço, heterotopia, que o “espaço-trio” – e suas modulações – será concebido como uma ocasião para novas possibilidades poéticas.

Alejandra Ceriani se pergunta sobre novos estatutos da dança para a tela quando novas tecnologias – sobretudo a presença massiva da internet – se estabelece como suporte das imagens que o mundo produz hoje.

“Notas sobre a dança para câmera e manifesto”, de Douglas Rosenberg, aborda questões sobre a materialidade e a imaterialidade da fotografia, do cinema e do vídeo. Depois de considerações sobre a construção do corpo impossível – “um corpo sem as restrições da gravidade, do tempo e mesmo da morte”, reconstruído através das técnicas cinematográficas – se encerra com um manifesto dedicado à “dança para tela”. Datado do fim dos anos 1990, anacrônico, portanto, diante do nosso veloz contexto tecnológico, o ensaio, em seu tom “apaixonado” (como reconhece, hoje, o autor), prolonga-nos questões e tensões absolutamente pertinentes entre dança (ou, mais abrangentemente, arte) e tecnologia em nossa contemporaneidade.

Não a videodança, mas a escrita sobre ela é o tema de Suzana Temperley, que marca o que reconhece como uma defasagem entre a produção e as formulações críticas a elas dirigidas. De fato, a videodança é objeto de teorizações oriundas frequentemente de seu próprio contexto artístico. São os artistas aqueles que mais se têm ocupado de pensar esta arte, o que faz a autora se perguntar sobre o estatuto da crítica de arte, hoje, sobretudo diante daquelas poéticas que, como a videodança, são híbridas, “complexas e ainda controvertidas”.

Enfim, é com tal variedade de perspectivas que, com o presente livro, o dança em foco espera contribuir para a consolidação de um espaço para a videodança e para a formação de um pensamento crítico em torno desse modo de produção audiovisual. Anos depois de lançar a primeira publicação dedicada à videodança no Brasil, o projeto renova seu esforço de tematizá-la e difundi-la.

A presente publicação só se tornou possível graças ao patrocínio da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, através do edital do Fundo de Apoio à Dança (FADA), de 2011. Nosso primeiro agradecimento é, portanto, à Secretaria Municipal de Cultura e, em especial, à sua Gerência de Dança.

A lista de agradecimentos que seria possível redigir aqui é extensa: artistas, colaboradores, instituições públicas e privadas, nacionais e estrangeiras se multiplicaram em torno desse projeto pioneiro nascido em 2003, o dança em foco.

De toda ela, no entanto, mencionaremos apenas um nome (ligado ao SESC Rio, instituição ainda hoje parceira que, através do Espaço SESC, primeiramente acolheu o projeto e, assim, ajudou a fundá-lo): Beatriz Radunsky. A ela dirigimos nosso especial carinho e gratidão, não apenas na condição de diretores do dança em foco, mas como cidadãos que prezam pela cultura do Rio de Janeiro.

Paulo CALDAS, Leonel BRUM, Eduardo BONITO e Regina LEVY

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